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  • Caroline Arcari

"Criança não namora". Não confunda as vivências e experimentações da criança com erotização precoce.



Para começo de conversa, é importante separarmos o termo erotização precoce de sexualidade infantil. Falar sobre sexualidade é falar de nossa história, nossas emoções, nossas relações com as outras pessoas, nossos costumes e nossos desejos. A sexualidade em si é uma força viva do indivíduo, um meio de expressão dos afetos, uma maneira de cada um se descobrir, bem como descobrir os outros. Ela se apresenta de diferentes formas, transformando-se ao longo dos anos. Não está conectada somente aos órgãos genitais, nem tampouco à relação sexual mas compreende uma série de processos psicológicos, físicos e sociais de sensações, sentimentos, trocas afetivas, necessidade de carinho e contato e necessidade de aceitação. Transcendendo o aspecto individual, o conceito de sexualidade não se completa dissociado de todas as suas dimensões sociais, políticas, econômicas, históricas, culturais e até das relações de poder que se estabelecem a partir desses corpos sexuados.


Sim, a criança é um ser sexuado. E aqui também é importante separar esse conceito de erotização precoce. Além de cabeça, ombro, joelho e pé, a criança é sexuada porque ela tem emoções, uma história de vida, curiosidades, um corpo cheio de sensações, necessidade de carinho e afeto, curiosidades sobre e si e sobre o outro, sente prazer e desprazer, pergunta sobre o mundo, o universo e até de onde vêm os bebês. E é assim que a sexualidade de apresenta na infância.


Somo seres sexuados desde o nascimento até a morte. Privar uma criança do exercício de sua sexualidade e do acesso à informação é violar um direito necessário ao seu desenvolvimento e até à sua proteção. Esse direito, quando não é respeitado, coloca em risco sua saúde, qualidade de vida e integridade física e psicológica, afinal, reprimir a sexualidade da criança é reprimir seu corpo, que é o ponto de partida das suas descobertas, da sua relação consigo mesma e com o outro e da formação da sua personalidade.


Sendo assim, a maneira como a sexualidade se apresenta na infância está inserida em todo o processo de desenvolvimento global da criança. Acompanha o desenvolvimento motor, psíquico, afetivo, cognitivo. Tipicamente, cada fase desse movimento que podemos chamar de desenvolvimento psicossexual, corresponde a algumas idades e a sexualidade se manifesta de maneiras diferentes perante situações de descoberta, curiosidade e experimentação. Em certa faixa etária, é comum que as crianças experimentem o mundo e passem a reproduzir papeis em suas brincadeiras: assim como elas brincam de astronauta, soldado e princesa, pode ser que elas passem a testar seus afetos para entender suas emoções. A menina pode brincar que ela e o colega são os pais de sua boneca; o menino pode fazer de conta que é o pai da família colocando uma gravata. Às vezes, quando desenvolvem uma preferência, afeto e apreço por algum colega, tendem até a chamá-lo de namorado ou namorada, numa tentativa de entender e nomear as emoções. Nesse caso, sim, a criança brinca de namorar, de casar, de ter filhos, de trabalhar, sem conotação erótica alguma.


É importante que os adultos aprendam a diferenciar as brincadeiras típicas dessas fases da vida do que realmente significa erotização precoce. É preciso tomar cuidado para que a interpretação dos adultos sobre as atividades infantis que, na maioria das vezes, não possuem teor malicioso nem tampouco erotizado, não vire um problema ou motivo de repreensões severas. A verdade é que o problema levantado com a frase “criança não namora” não está nessas expressões, brincadeiras e no faz-de-conta infantis, mas em como os adultos responsáveis mediam essas atividades lúdicas e de experimentação dos pequenos. Às vezes, os responsáveis interpretam esse interesse pelo outro, as preferências por algum amigo ou amiga, como uma relação romântica, erótica. Isso é pura projeção adulta sobre a atividade infantil. A criança só está aprendendo a selecionar suas amizades e entender suas relações. A responsabilidade dos adultos é de ensinar as crianças a darem nome para esses sentimentos, estabelecendo os limites e as diferenças entre as relações de amizade saudáveis na infância e as relações íntimas-afetivas reservadas ao universo adulto.


Durante as conversas, é importante que os adultos não ridicularizem as crianças, deixando bem claro que compreendem e validam seus sentimentos. Além disso, nesse diálogo as famílias e professoras(es) precisam orientar as crianças que namoro, casamento, beijo na boca e outros carinhos mais íntimos são atividades do universo adolescente e adulto e que é preciso maturidade e responsabilidade para isso. Então, é possível amar o(a) coleguinha, mas que esse amor, que também pode ser chamado de amizade, pode ser expresso com um abraço, companhia, o compartilhamento de uma brincadeira, de um lanche, de um passeio ou de uma leitura.


Entendido isso, é hora de pensarmos sobre a erotização precoce. Erotização precoce é a exposição prematura de conteúdos e estímulos a indivíduos que ainda não têm maturidade suficiente para compreendê-los e elaborá-los: incentivar meninas a se vestirem de forma adultizada usando maquiagem, sapato de salto, dançando de forma sensualizada, permitir que a criança assista novelas e programas com conteúdo inadequado à faixa etária e com cenas de teor erótico, expor meninos ou meninas à pornografia, deixar de mediar o acesso das crianças à tecnologia – que é uma ótima ferramenta de aprendizado e lazer quando bem utilizada – mas que pode se tornar um ambiente prejudicial de fácil acesso à pornografia quando regras não são estabelecidas e há carência do acompanhamento de um adulto.


Por fim, em uma cultura pautada pelo machismo, é ele que ocupa papel central em se tratando de erotização precoce. Enquanto as meninas são frequentemente incentivadas a se vestirem de forma sensual e adultizada, os meninos são incentivados a falarem sobre suas namoradas – lembrando que esse termo sempre aparece no plural - como uma forma de afirmarem constantemente a sua masculinidade. Masculinidade se refere aos valores do que significa ser menino e homem para a sociedade. A masculinidade vigente cobra que meninos sejam fortes, corajosos, competitivos, controladores e mostrem sua virilidade de forma pública e incisiva. As consequências são desastrosas: sabemos que esse tipo de masculinidade está na base de comportamentos abusivos e violentos. Assim, erotização precoce na educação do menino pode ser percebida na exigência para que ele demonstre essa virilidade, no incentivo para que ele consuma pornografia, e na cobrança de que prove “ser homem” iniciando a vida sexual por pressão do grupo ou de outros homens de sua convivência. Essa masculinidade rígida vigente também coloca os meninos em situação de vulnerabilidade perante a violência sexual: é notável a subnotificação dos casos de abuso sexual envolvendo crianças do sexo masculino. Isso acontece porque há uma preocupação menor em orientar os meninos quanto aos perigos da violência sexual, ao mesmo tempo que, em casos nos quais eles são abusados por mulheres mais velhas, isso não é visto como um problema, mas como sorte ou privilégio.


É tarefa de todas e todos nós garantirmos uma infância protegida, seja como profissionais, cidadãos ou como família. Para isso, diálogo constante, educação sexual de qualidade, acompanhamento das atividades diárias das crianças, a atenção às brincadeiras saudáveis e àquilo que a criança consome, além de uma educação não violenta, são essenciais. Criança não namora – mas quem deve ensiná-la isso, são os adultos responsáveis.

Caroline Arcari – pedagoga, escritora e mestra em Educação Sexual.

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