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  • Caroline Arcari

NÃO EXISTE CRIANÇA LGBTQIAP+

Eu assistia Star Wars com meu pai, quando eu tinha 5 anos de idade. Eu era APAIXONADA pelo Luke Skywalker. Sonhava acordada com nosso casamento, imaginava que ele vinha até meu quarto pra comer brigadeiro comigo (era o que eu supunha que casais faziam em privacidade). Eu também adorava o Juninho Bil, do Trem da Alegria. Na minha imaginação casei com o Afonso, do Dominó e namorei o Jordan, do New Kids on the block. Me apaixonei pelo Johnny Godoy , meu colega do Jardim 3. Algumas pessoas poderiam dizer: tá vendo? Você era heterossexual desde que nasceu!



Esse dias minha amiga, casada, que se entende heterossexual, me disse que adorava ver suas Barbies peladas e se excitava de ver o corpo das bonecas. Alguém poderia pensar: ela era uma CRIANÇA LÉSBICA? Uma aluna minha, cujo apelido maldoso era SAMARA*-SAPATA (*mudei o nome proprio), tinha 9 anos de idade e adorava jogar futebol com os meninos. Vivia suada de tanto jogar bola nas esquinas do bairro, contrariando a expectativa social da menina delicada, arrumadinha, que senta de pernas cruzadas. Ela era uma CRIANÇA SAPATA mesmo? Achei que esses três exemplos fazem um boa introdução pra esse post que é, no mínimo, POLÊMICO.


Eu sei que parece super progressista, engajado e atual falar em “criança LGBTQIA+”. Mas, em se tratando dos direitos das crianças, todo cuidado é pouco. Como vocês sabem, a minha editora, minhas pesquisas e meus estudos orbitam a temática do enfrentamento ao abuso sexual contra crianças. Passei minha vida profissional estudando e investigando a sexualidade infantil. O conceito mais fundamental para começar a entender esse tema é: A SEXUALIDADE DA CRIANÇA É DIFERENTE DA SEXUALIDADE ADULTA.


Vejam só, quando falamos de sexualidade infantil, estamos nos referindo a uma época muito peculiar da vida. É uma fase em que começamos a interagir com o mundo, a entender nosso corpo. Estamos aprendendo a falar, a andar, a nos relacionar, a fazer amizades, a dividir o brinquedo, a sentir, a lidar com as frustrações. Também é uma fase de exploração do mundo, do espaço, das possibilidades. É um período de experimentações, curiosidades, desejos, vontade de saber sobre si e sobre o outro. Quando eu desejei comer brigadeiro com Luke Skywalker dentro do meu quarto, aos 5 anos, esse comportamento não estava fazendo uma revelação sobre minha orientação sexual, mas sobre minha condição de criança: eu estava exercitando meus sonhos, minhas possibilidades. Eu era, aos 5 anos de idade, uma criança heterossexual? É possível estabeceler essa classificação às experiências de uma menina nessa fase do desenvolvimento?


Respondo isso com um ousado *NÃO*. Não!


Criança não tem orientação sexual. Isso não significa que ela não tenha desejos, imaginação, curiosidades. O nome que damos a essas experimentações na infância NÃO É ORIENTAÇÃO SEXUAL. A orientação sexual é um movimento dinâmico que passamos, a partir da adolescência, a compreender e dar nome. Passamos a ter consciência dela a partir das experiências afetivas, íntimas e eróticas conosco e com o outro. Vamos compreendendo e descobrindo para onde nosso desejo vai (ou não). Pode ser que as vivências e sentimentos da infância coincidam com a orientação sexual da vida adulta. Eu gostava de Luke Skywalker e hoje sou hetero. Minha amiga que curtia as Barbies peladas, embora tenha vivenciado essa experiência no campo da imaginação, hoje ela é uma adulta que gosta de homens. E pode ser que João, que tenha se apaixonado por Marcos aos 7 anos de idade, hoje seja GAY. Mas isso não quer dizer que a paixão e os sentimentos que ele teve com o colega da escola fossem a orientação sexual de João. Eram, sim, as vivências de João. Entendem como pode ser problemático falar de orientação sexual de crianças? Assim como não é possível que uma criança seja HETERO, também não é possível ela ser GAY, LÉSBICA, BI, ASSEXUAL, PANSEXUAL. Por esse motivo, não faz sentido a utilização do termo “criança LGBTQIAP+”, só pelo fato de conter na sigla orientações sexuais que não, por si só, não são próprias da infância.


Ao atribuir características de uma sexualidade erótico-adulta aos comportamentos infantis, nosso discurso pouco se diferencia do discurso do abusador que atribui à sexualidade da criança características de uma suposta maturidade e consciência do desejo. Então, como chamar um menino lido como afeminado, um garoto que usa o sapato de salto da mãe, uma menina que não é delicada, que quer casar com a coleguinha ou um menino que gosta de usar vestidos? Ou ainda uma menina que odeia princesas e usa cabelo curto?


Eu digo que são crianças que fogem às normas rígidas de gênero. Eu prefiro me referir ao comportamento delas, que é típico, saudável, questionador e próprio da fase de desenvolvimento. Nem sempre esses comportamentos têm a ver com a futura orientação sexual ou .identidade de gênero. Quando dizem que “crianças LGBTQIAP+” sofrem homofobia, transfobia, bullying por serem quem são, eu digo que TODA CRIANÇA que não obedece às normas de gênero sofre o mesmo, em diferentes graus. Não importa o desfecho da orientação sexual ou identidade de gênero na vida adulta – se o menino não obedece à masculinidade viril, se é sensível, se rebola, se dança, se chora, se quer ser princesa – ele sofrerá essas violências por não atender às expectativas da sociedade de como deve se comportar um menino. Não importa se Samara (que eu contei lá no começo do texto) hoje é uma mulher heterossexual. O apelido dela, SAMARA-SAPATA, era a violência que a sociedade deu como resposta por não obedecer à feminilidade que impõe a delicadeza e submissão à condição de ser menina. Não existem crianças LGBTQIAP+.


Existem crianças que avisam, de formas diversas, que gênero é opressão e que desafiam as regras sociais para mostrar que existem inúmeras possibilidades de ser e estar no mundo. Para isso, a liberdade de refletir sobre esse tema é crucial.

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