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  • Caroline Arcari

Anne Frank escreve sobre educação sexual em páginas secretas




Hoje recebi de uma leitora de Fortaleza, a Tiaia Tavares, a transcrição desse trecho recentemente revelado do diário de Anne Frank, no qual ela faz reflexões sobre educação sexual, suas descobertas, dúvidas e vivências como adolescente. De uma delicadeza imensurável, tanto o trecho quanto o gesto dessa leitora, é impossível não se encantar com os pensamentos da Anne sobre questões tão presentes na vida de qualquer ser humano.


O texto esteve coberto por uma espécie de papel pardo, possivelmente colado por ela mesma para esconder o conteúdo da sua família e manter sua privacidade, já que moravam todos em um esconderijo, o Anexo Secreto.


Em 2018, o trecho foi revelado e muitas pessoas levaram a hipótese da informação manchar a imagem de Anne Frank, já que, além do conteúdo sobre educação sexual, a adolescente também escreveu piadas de teor sexual que havia ouvido quando ainda era uma menina livre dos horrores da Segunda Guerra mundial.


A diretoria do museu foi muito precisa ao afirmar que esse texto tem uma grande importância história e acadêmica, humanizando ainda mais a Anne, ao revelar essa faceta de uma adolescente em plena relação com as transformações do corpo e as dúvidas típicas da fase.

Segue uma parte do texto:


“Sábado, 18 de março de 1944 [§] Querida Kitty, [§] Falei mais sobre mim e sobre meus sentimentos a você do que a qualquer outra pessoa, então por que isso não incluiria o sexo?”


“Os pais, e as pessoas em geral, são muito estranhas quando o assunto é sexo. Em vez de contar tudo aos filhos quando eles têm doze anos, mandam as crianças para fora da sala quando surge o assunto e deixam que elas descubram tudo sozinhas. Mais tarde, quando os pais percebem que, de algum modo, os filhos encontraram a informação, presumem que eles sabem mais (ou menos) do que realmente sabem. Então por que não tentam consertar perguntando o que é o quê?”

“Uma grande barreira para os adultos – ainda que em minha opinião ela não seja maior do que um pedregulho – é que eles têm medo de que os filhos não vejam mais o casamento como uma coisa tão sagrada e pura ao perceberem que, na maioria dos casos, essa pureza é um completo absurdo. Segundo meu ponto de vista, não é errado que um homem traga um pouco de experiência anterior ao casamento. Afinal de contas, isso não tem nada a ver com o casamento em si, tem?”


“Logo depois que fiz onze anos, eles me falaram sobre menstruação. Mas mesmo então eu não tinha idéia de por onde o sangue saía ou qual era o motivo. Quando fiz doze e meio, fiquei sabendo mais um pouco com Jacque, que não era tão ignorante quanto eu. Minha intuição me contou o que um homem e uma mulher fazer quando estão juntos; a princípio pareceu uma idéia doida, mas quando Jacque confirmou, fiquei orgulhosa ao ter imaginado sozinha!”


“Também foi Jacque quem me disse que as crianças não saíam pela pança das mães. Ela disse: [§] Os ingredientes entram pelo mesmo lugar de onde sai o produto pronto!”


“Jacque e eu ficamos sabendo do hímen, e de alguns outros detalhes, num livro de educação sexual. Eu também sabia que era possível evitar filhos, mas continuava sendo um mistério o modo como isso funcionava dentro do corpo. Quando cheguei aqui, papai me falou sobre prostitutas e essas coisas, mas ainda existem perguntas sem respostas. [§] Se as mães não contam tudo aos filhos, eles ficam sabendo aos pedaços, e isso não pode ser certo.”


Em época de programa de abstinência sexual sendo lançada pelo governo, eu insisto em pedir para as pessoas pararem de chamar os nossos governantes atuais de crianças de sexta série. Antes de ser escritora eu fui professora e diretora pedagógica e meus alunos dessa faixa etária nunca agiram de forma tão desumana e imatura quanto os bolsonaristas.


Na sexta série, tínhamos 12 anos de idade, exatamente a idade de Anne quando ela escreveu esse texto em seu diário, um tratado sobre o direito à informação e importância da educação sexual. Bolsonaristas são tudo, menos crianças de sexta série. Respeitem nossos jovens.



Escrito por Caroline Arcari.


Referência:

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank: edição integral. Tradução: Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 208/209




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